VAMOS ALMOÇAR DEBAIXO DA PONTE DO RIO IPIRANGA

MUSEU DO IPIRANGA - SP


Lá se vai os tempos em que os menores de idade podiam trabalhar, tanto no comércio como nas indústrias, ainda não tinham inventado o “estatuto das crianças”.

Dito isso, quero dizer que comecei a trabalhar desde os 7 anos de idade, que foi trabalhar na Torrefação e Moagem “Café Jambo”, Rua Silva Bueno, 2258, meio período no trabalho ia para a escola, terminava as aulas e voltava para a torrefação, pesar e empacotar pó de café.  Após preencher todos os requisitos no Ministério de Trabalho eu e o mano Rubens conseguimos obter uma carteira de menor provisória, eu com 14 ele com 13 anos.

Trabalhamos alguns meses na CIPA - Comércio e Indústria, Rua dos Sorocabanos/Rua Bom Pastor,  que fabricava luvas de todo tipo, numa segunda feira qualquer ao adentrar nas dependências da empresa recebemos uma comunicação que fomos dispensados.

E agora como explicar para o nosso pai que fomos dispensados do serviço? Ficamos preocupados, isto porque o que ganhávamos ajudava no orçamento familiar e agora os dois desempregados.

Na época era assim completava o 4.º ano primário já tinha que arrumar qualquer emprego, dizia meu pai que não tinha condições de custear os estudos após concluir o primário.

Ficamos sem rumo e com medo de ir pra casa. Como era de costume carregávamos a famosa marmita, contendo arroz, feijão, e um ovo frito, às vezes variava com chuchu etc., resolvemos então andar pelo Parque da Independência onde D. Pedro I deu o famoso “grito de independência”.

A barriga roncava daí resolvemos esquentar a marmita, mas onde? Logo vimos uma pequena ponte sobre o rio Ipiranga e fomos nós para debaixo dela, quem sabe conseguimos alguns gravetos para esquentar a bóia. E assim foi, nos acomodamos embaixo da ponte, achamos lá um punhado de gravetos, que colocamos por entre as pedras e ateamos fogo.

Estava difícil acender, isto porque os gravetos estavam meio úmidos, enfim deu pra esquentar um pouco. O problema foi que deixamos os talheres na firma, e agora como vamos fazer para almoçar. Circulamos um para cada lado e achamos várias cartas de baralho.

Acabamos usando as cartas como talheres e almoçamos tranquilamente. Quando estávamos almoçando comentava sobre a história do Brasil, e perguntávamos um para o outro, será que é verdade essa história do D. Pedro I, foi aqui mesmo que ele deu o famoso “grito”.

O mano Rubens falou tem tom irônico se é verdade ou não é problema de quem escreveu, o nosso problema vai ser quando chegar a casa e tentar explicar para o nosso pai Benedicto o motivo em que fomos dispensados do trabalho. Uma coisa é certa se ele deu o grito aqui neste rio, nós almoçamos, então é 1 a 1.

Dei uma sugestão ao mano Rubens, se a gente conseguisse arrumar dinheiro nós íamos para Porto Ferreira, pescaríamos alguns peixes e tínhamos uma mistura melhor do que ovo frito, ainda mais gelado, parecendo cara de gente véia. Caímos numa gargalhada.

Coisas de criança...

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