Dona Rosa e o caboclo Zeca Bem


-Dona Rosa  engolia sementes de frutas-

Dona Rosa nasceu numa fazenda nos tempos em que a sua família era meeira, portanto isso já faz muito tempo, pelo que se sabe o sistema de meeiros, colonos morarem em fazenda já não existe mais.
 A dona Rosa teve uma vida normal e brincava com todas as crianças da fazenda em que morava na sua tenra idade.
Numa certa fase de sua vida de criança, gostava muito de brincar de casinha, e até encenavam um teatrinho, e nesta encenação ela interpretava o papel de esposa e outro amiguinho seu interpretava o papel de marido, ou melhor, mamãe e papai.
Nessa brincadeira inocente de mamãe e papai, um dia ela resolveu fazer uma salada de frutas, e pediu para o seu amiguinho que interpretava o papel de papai, que ele fosse buscar algumas frutas no próprio pé, pois os seus pais sendo meeiros, tinham lá num certo trecho da fazenda um terreno no qual foram plantados muitos pés de frutas, aliás, tinha uma grande variedade, tais como: mamão, abacaxi, pêssego, laranja, amora, uva, caju, melancia, goiaba, manga e outras mais.
O seu amiguinho “marido” foi lá e trouxe, abacaxi, mamão, goiaba e algumas mangas para chupar. Em posse das frutas ela foi descascando, picando e colocando dentro de uma velha panela que a sua mãe já usava mais. Misturava tudo e colocava um pouco de goma de mascavo para ficar mais adocicado. Seria a primeira vez que eles iam comer salada de frutas.
 O motivo da então menina Rosa fazer a tal salada de frutas, foi porque a mãe dela fazia isso costumeiramente, ou melhor, todo santo dia, e servia a todos da família após acabarem de almoçar e jantar, e segundo a mãe da Rosa, a salada de frutas era uma ótima sobremesa, e fazia bem ao estomago, ainda mais se tivessem alimentado, comendo carne de porco, no caso ela referia a fruta do abacaxi, que sendo uma fruta acida, evitaria algum mal estar.
Aí então a menina Rosa tirava as sementes das frutas selecionadas, e as guardava num coité, de vês em quando ela retirava alguma semente e engolia, e outras ela ia plantar no seu quintal.
Ela a Rosa cresceu e tornou-se uma linda moça, e era admirada por sua beleza, mas os seus pais não permitiam que ela namorasse de maneira alguma. Até que certo dia houve uma festa junina na fazenda, e quem ia animar a dança da quadrilha era o sanfoneiro conhecido por “Zeca Bem”.
Zeca Bem era oriundo lá das bandas de Pernambuco, e o seu estilo de tocar sanfona diferenciava dos que ela já tinha visto tocar, isto porque os paulistas, mineiros, goianos, gaúchos e paranaenses tocavam diferente, aliás, cada estado do nosso país tem uma maneira de executar o instrumento devido à influencias regionais.
O sanfoneiro Zeca Bem tocava uma musica, cujo titulo era: Baile do risca faca, dizia que a musica era de sua autoria. Ele tocava na sua sanfona, mas corria o “zóio” pelos lados da Rosa, e a Rosa percebeu também ficou de olho nele, e assim foi até que terminou a dança da quadrilha.
O dono da fazenda era um festeiro dos bons e começou a servir alimentos, iguarias apropriadas em época de festas juninas para todos que ali estavam, e apresentou a Rosa para o sanfoneiro Zeca Bem. Os pais dela ficaram só observando, enfim o homem era o dono da fazenda e sabia quem eram os seus convidados, principalmente o sanfoneiro Zeca Bem.
A moça Rosa e o Zeca Bem pegaram no papo, e iniciaram um namorico, saíram procurando um cantinho, pois ali estava uns bebendo quentão, vinho, comendo pinhão, e outros soltavam rojões, e conversar num ambiente desse fica difícil. Os dois se acertaram, amor à primeira vista. Meses depois ela ficou grávida, e mesmo os seus pais não querendo o namoro tiveram que aceitar, pois a moça Rosa estando grávida, o remédio era remediar os fatos, eles iam casar de qualquer maneira.
Suas amigas de infância providenciaram um chá de cozinha, o Zeca Bem foi festejado pelos amigos que na fazenda viera a conhecer, prestando a ele a famosa despedida de solteiro.
Com muito gosto o dono da fazenda arrumou uma casa para eles morar, isto porque um dos colonos resolveu desocupar em razão de não se dar bem com o dono da fazenda. O Zeca Bem era mais um que se integrava juntos aos colonos. Os dois se casaram, e foi aquela festança. O tempo passou e logo nasceu o primeiro filho, um ano depois nasceu uma menina, mais um ano nasce outro menino, enfim o Zeca Bem e a Dona Rosa já tinham três rebentos, bonitos filhos.
Numa noite, o Zeca Bem e a Dona Rosa estavam jantando juntamente com os seus três filhos, ela se lembrou do dia em que conheceu o seu atual marido, e perguntou se ele tinha colocado letra naquela tal musica que ele tinha tocado no dia da festa, festa esta que ela conheceu o Zeca Bem. O Zeca Bem respondeu a sua esposa dona Rosa, estou com ela na cabeça, o titulo que dei a aquela musica foi: Baile do Risca Faca. Diz ele para a esposa dona Rosa. Pegue um lápis e uma folha de papel que vou soletrar palavra por palavra, verso por verso, e mais você vai ser coautora da letra, pois desde que você casou comigo, porque não ser parceira também na letra desta musica.

BAILE DO RISCA FACA

No baile do risca faca,
Sanfoneiro sacode o fole,
Dançarinas batem coxas,
É tal de bole – bole,
Coronel bate pandeiro,
O coro come na mão do zabumbeiro
Olho de cabra e o catiorão
Repica no contrabaixo
No ritmo gostoso do baião.
A morena faceira,
Baila como quê,
Da tabua no amolengo,
Sai dançando maneira
E ele não vê.
Amolengo bebeu demais,
Deu um fora nele arrumando outro,
A morena já não aguentava mais,
E o dito cujo pirou de vês.
Amolengo puxa uma lapiana,
Cisca pra lá, cisca pra cá,
A morena rodou a baiana,
Macaé comeu vatapá,
Saiu fogo do chão e muita poeira,
Enfrentando o amolengo,
Caboclo bom mestre de capoeira.
O sanfoneiro não parava de tocar,
Esperando que a turma do deixa disso,
Viessem separar os dois,
Que parar que nada.
Apareceu um caboclo maluco,
Empunhando uma velha espingarda,
Puxou o gatilho pro alto e bum – bum,
O sanfoneiro que tocava Néco – Néco,
Assustou e caiu do banco,
O tiro acertou na sanfona,
Que fez Néco rum.
A luz apagou,
A policia chegou,
E o baile terminou,
Amolengo foi ferido
Macaé acabou detida,
A morena saiu batida,
Resumindo a briga não teve sentido.
O sanfoneiro ficou fulo,
Ao ver sua sanfona,
Com o fole furado, ficou irado,
Deu um pulo,
Mas brabo por que não tinha seguro,
Dizia ele como é que vou tocar,
Fiquei no prejuízo,
Por causa do amolengo,
E do Macaé  e também a morena,
Que não tiveram juízo,
Arrumaram tanta confusão,
Com a briga no salão,
Sai perdendo vou ter que,
Consertar meu sanfonão,
Depois dessa,
Nunca mais eu vou tocar neste salão.

Após o encerramento de escrever essa letra resolveram ligar o radio para saber as noticias editada pela Rede Nacional de emissoras de radio comunicação a tão famosa “Hora do Brasil”, e ouviram uma informação dizendo que os fazendeiros iriam tomar uma decisão quanto à contratação de colonos, ditos meeiros. Haveria uma mudança drástica e foi daí que surgiu o trabalhador rural chamado de “boias-frias”.
Não tinha outra solução, os colonos migraram para a cidade. Pensavam eles, ser meeiros já era difícil, agora morar na cidade, vai ter pegar ônibus ou caminhão para trabalhar, levantar cedinho e carregar a marmita fria.
Zeca Bem e família foram inteligentes, no breve tempo que morou na fazenda e tocando bailes foi economizando, guardando dinheiro, daí foi possível inscrever para comprar a tão sonhada casa própria financiada para pagar em suaves prestações, vinte e cinco anos (25) era o prazo do financiamento.
Foi sorteado, ficou muito contente, pois a questão da moradia foi parcialmente solucionada, isto porque, achou pequena, mas havia espaço no terreno  para que pudesse aumentar mais alguns cômodos e assim acomodar toda a sua família, que eram, ele o Zeca Bem, a dona Rosa, o Joãozinho, Marianinha e o Juquinha.
Aos poucos foi se adaptando na cidade, trabalhando na roça e nos fins de semana tocava sanfona, com isso reforçava o orçamento familiar. A Dona Rosa não gostava dessa idéia de que vivesse tocando baile, mas enfim, ela o conheceu tocando baile.
Zeca Bem agora já tinha um grupo musical bem estruturado muito bailes agendados, eventos e também participar em comícios de políticos, e foi assim que ele conseguiu comprar um ônibus usado, mas com motor reformado, deu uma pintura geral, trocou os bancos que estavam ruins, e mandou escrever o nome do grupo de ambos os lados da carroçaria e também um letreiro acima do para-brisa, o ônibus ficou muito bonito.
Durante alguns anos foi assim, de semana trabalhar na roça, sábado, domingo e feriados a lida era viver nos bailes. O grupo musical do Zeca Bem era formado por cinco músicos, tais como: Zeca Bem na sanfona e cantor, Benzinho na segunda voz, Ditinho no teclado eletrônico, Tião Gaúcho na guitarra solo e Soares no sax-tenor.
Após vários anos na lida musical, resolveram gravar um disco por conta própria, com musicas inéditas e compostas por compositores locais, compositores que residiam na mesma cidade. Fizeram um Livro de Ouro, angariando fundos para tal empreitada, e em pouco tempo conseguiram o dinheiro para pagar os custos do estúdio e mais a impressão dos discos. Era uma loucura, trabalhar na roça, fim de semana tocar baile e agora ensaiar para gravar o disco. Mas todos os cincos integrantes do grupo estavam felizes, sem falar dos familiares e amigos que davam apoio para que isso se consumasse.
Entre um orçamento e outro para fazer o trabalho de gravação acharam um estúdio que parcelava os pagamentos, e assim foi eles gravar o disco. Sendo a primeira vês que entravam num estúdio de gravação ficaram meio acanhados ao ver tantos aparelhos eletrônicos, microfones etc.
Entraram numa sala, tendo lá dois microfones pendurados, e daí o técnico diz para eles, podem iniciar a primeira musica para fazer um teste de gravação. E assim foi, gravaram todas as musicas na sequência, e depois foram ouvir para saber se estava tudo correto.
Retornaram as suas residências e ficaram aguardando o disco “demo”. O tempo passou, foram trinta dias de expectativa para verem o resultado final. Antes, porém, era preciso tirar algumas fotografias para serem impressas nas capas. Foram até um estúdio fotográfico, contrataram o fotografo e saíram pela cidade escolhendo os locais para tirarem as referidas fotos. Cinquenta fotografias foram tiradas, entre todas escolheram apenas três para serem impressas, na capa, contracapa e na frente do disco.
Com o disco prontinho nas mãos, agora vinha o trabalho de divulgação. Viajaram para algumas cidades circunvizinhas, visitando emissoras de radio e até televisão.
Zeca Bem comentava com a Dona Rosa sua esposa. Pra quem vivia morando na fazenda, passando dificuldades, depois mudar para a cidade, formar o conjunto e agora gravando um disco por conta própria, me sinto o homem mais feliz desta terra.
A Dona Rosa ficou emocionada ao ouvir o que ele dizia, e foi abraçando os seus três filhos, e ao mesmo tempo ela dizia para os filhos. Vocês três tem que dar parabéns ao seu pai por tudo que ele tem conseguido nestes últimos anos de tanto trabalho e dedicação.
A Dona Rosa comenta com o seu marido Zeca Bem. Lembrando do nosso passado quando te conheci, naquele baile lá na fazenda, veio agora na minha cabeça, uma frase interessante que diz o seguinte, a escola da vida. O Zeca Bem ficou surpreso ao saber de que a Dona Rosa tinha também o seu lado poético. Disse a Dona Rosa, não Zeca eu nunca foi poeta, apenas veio na ideia essa frase e daí foi compondo palavra por palavra. Por favor, Zeca pegue um lápis ou uma caneta e papel que vou lhe ditar o que estou pensando. Disse o Zeca para a dona Rosa, espera um pouco que já vou achar qualquer coisa para escrever o que você está pensando. Rosa pode ir ditando...

A escola da vida

A escola da vida,
Ela nos ensina, no dia a dia,
Aonde que as dificuldades vão surgindo
E temos que superar. Pensamos...
Pensamos, planejamos uma vida melhor das que temos
E sempre sonhando, que o amanhã será melhor do que hoje.
Procuramos acertar mais do que errar
Apesar de que erramos muito.
Imaginamos um futuro promissor.
Fazer tudo aquilo que nos dá prazer.
Nos erros, também aprendemos.
E com isso vamos amadurecendo,
Ampliando os conhecimentos.
Momentos de alegria, momentos de tristeza,
Os entes queridos, os amigos se foram para o além...
Ficando a saudade, a amizade, a lembrança.
O ciclo da vida:
Sendo nos fruto do amor, nascemos,
Crescemos, vivemos e envelhecemos,
E num sopro de ar, viajamos.
Viajamos para o além, o desconhecido.
Se desta vida não levamos nada,
Dela não sabemos muito,
Como saber de outras vidas.
Vidas ou dimensões?
Imaginamos que vamos para um lugar melhor,
Será um paraíso? E quem pode afirmar que isso é uma realidade?
Os que já se foram não voltaram.
É uma incógnita, portanto é só Deus é quem sabe,
Pois não sabemos nada de nada.
Cada ser pensa de um jeito.

Dona Rosa pergunta ao Zeca Bem se gostou do ela pensou e acabou de ditar. O Zeca Bem lhe responde, o que você acaba de criar é algo pra pensar com muita calma, outra hora nós vamos analisar o conteúdo disso tudo, e quem sabe com o passar do tempo eu consigo compor uma melodia e encaixando essa letra.
Meses depois o grupo musical do Zeca Bem foi fazer o lançamento do disco num clube de dança. Com hora marcada para viajar, os componentes iam chegando, como era um dia festivo para eles alguns familiares e amigos foram juntos para participar do lançamento. Entre músicos e simpatizantes somaram-se vinte e cinco pessoas (25). As esposas sempre que podiam acompanhava o grupo, e preparavam alguns salgadinhos para degustar no caminho, tais como: coxinhas, bolinhos de carne, quibe, mandioca frita, e até uma garrafa térmica com café, além de frutas. É coisa rara mais ninguém era chegado a bebidas alcoólicas.
Com o ônibus na estrada, tudo era festa, parecia mais um dia de lazer, que faz lembrar um “pic nic”, mas para os músicos era um trabalho importante. Chegando em frente do salão de baile, estacionou, agora todos iam ajudar no descarregamento dos equipamentos de som, instrumentos e outros apetrechos para deixar o palco bem enfeitado. O trabalho de descarregar e montar tudo demorava quase uma hora, sem contar o tempo para testar o som. Era um tal de 1,2,3, som, testando, isso se repetia varias vezes.
O relógio pendurado no canto do salão marcava que era vinte e duas horas, momento de iniciar o show. Casa cheia, daí o Zeca Bem deduziu que o trabalho de divulgação foi bem feito. Todo inicio de baile o publico presente se mostra um pouco frio, mas após tocar uma seleção de musicas os dançarinos vão se soltando e fica bem animado ainda mais quando bebem uma cervejinha e outros drinks.
Vários discos foram sorteados mediante o numero do ingresso que receberam na portaria, os que foram sorteados ficam contentes e os que não foram aguardam o próximo sorteio.
A dona Rosa não foi assistir o lançamento do disco, achou melhor ficar no ônibus, e como estava estacionado bem em frente do salão dava para ouvir o desenrolar do baile, alias, ouvir as cantadas pelo conjunto do seu marido Zeca Bem.
O tempo passou rapidamente e já eram quatro horas (4) da manhã e o baile terminou. Zeca Bem e seu grupo estavam satisfeitíssimos com a apresentação realizada, e vamos nós de volta. Começar tudo de novo, agora é o trabalho de desmontar todo equipamento e carregar para o ônibus e de volta pra casa.
Um dos músicos foi até o ônibus pedir para que a dona Rosa abrisse a porta que em seguida o pessoal ia colocar os apetrechos dentro dele. Chamou ela duas vezes e nada de abrir a porta. Pensou o musico, ele deve está dormindo? Foi chamar o Zeca Bem que estava conversando com o diretor artístico do clube. O Zeca pediu licença para o diretor e foi até o ônibus ver o que estava acontecendo. Ele também bateu na porta e nada da dona Rosa se manifestar, e a solução foi forçar o vidro da janela lateral do lado do motorista para tentar abrir a porta. E assim foi, após forçar o vidro ele cedeu e foi aberta a porta do ônibus.
Zeca Bem adentrou no corredor indo até onde estava a sua esposa dona Rosa, e chegando lá a encontrou desfalecida segurando um recipiente de lixo em suas mãos.
De imediato a colocaram dentro de um veiculo que passava por ali, rumando para o hospital mais próximo. Mas de nada adiantou o medico disse que ela já estava morta e não podia fazer mais nada. Horas depois o medico disse que ela faleceu em razão de ter engolido um caroço de manga.
Dias depois do falecimento de sua esposa a dona Rosa ele foi até o lugar onde guardava as partituras e outros papéis, encontrou a folha de papel que continha  o texto ditado por ela, dias antes do lançamento do disco, com o titulo: A escola da vida. O Zeca Bem após ler o texto deduziu que a sua esposa dona Rosa estava pressentindo a sua própria morte. E assim foi a vida de Dona Rosa!
Aqui jaz a Dona Rosa que gostava de engolir sementes de frutas, só que ela exagerou, engolindo um caroço de manga.

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