Fogão de lenha - pó de serra



Meu pai era marceneiro e nos dias de folga vivia fazendo objetos de madeira para passar o tempo. Um desses objetos que recordo era um monjolinho bem feito, que mediante um canalzinho de água que existia no quintal da nossa casa ele botou pra funcionar, e explicava pra que servia, mas desta vez ele tinha fabricado uma carrocinha para transportar pó de serra, tração humana, sendo que eu e mais dois irmãos revezamos neste trabalho.

Tínhamos duas opções para buscar o tal produto, uma das serrarias ficava próximo da Sabrico, Rua  do Grito com a Rua 1822 por onde passava o rio vindo do Tanque da Pólvora, e a outra ficava na Rua Álvaro do Vale que fazia fundos com o campo do Pátria Futebol Clube.

Por ser mais perto optamos pela serraria da Rua Álvaro do Vale. Enchemos vários sacos com pó de serra, e de lá assistimos uma pelada de futebol. Tudo pronto pra retornar,  a nossa casa resolvemos assistir de perto tal partida.

Ficamos sentados na beira do barranco, bem próximo de uma Avenida que liga São Paulo a São Caetano, me foge da memória o nome desta via publica, acho que é Avenida Almirante Delamare ou Avenida Comandante Taylor, enfim além de nós tinha mais pessoas ali assistindo, e num certo momento um garoto entra no mato e vai fazer suas necessidades fisiológicas.

Pouco tempo depois ele anuncia que tinha achado algo. Todo mundo que estava por ali escutou e ficamos todos curiosos pra saber o que era. Ele achou vários pacotinhos enrolados, tendo como embalagem folhas da revista “Coquetel” e foi abrindo um por um. Que seria aquilo?  Alfafa? Capim verde enrolado?

Um jovem adulto logo identificou o que era, dizendo isso é maconha. Muitos de nós indagamos o que é maconha? Dizia o jovem, é semente de cânhamo, é comida de avinhado (passarinho), uma variação da planta cannabis.

Resultado: o jovem fez alguns cigarros e deu pra todo mundo fumar. Meia hora depois todos nós garotos falávamos que nem papagaio, ríamos sem parar,  sentíamos a garganta seca, todo mundo com sede,  outra coisa que todos perceberam foi sentíamos muita fome, e quando andávamos parecia que a gente flutuava no ar, diante dessa prosopopeia acabou a pelada.

Dias depois ficamos sabendo que naquele lugar era onde os traficantes escondiam tais cartuchos de droga, isso foi nos anos de 1950/1960. Hoje dizem que esse produto é: “cigarrinho do capeta”.

Fumar “cigarrinho do capeta” já era proibido, e vi muitos colegas de infância chegar ao fundo do poço, enfim foi a primeira e ultima vez, o lema em casa era droga tô fora!.

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