VAMOS CANTAR MUSICAS PORTUGUESAS

ROJÃO

Era dia 13 de maio de um ano qualquer dos anos 70, acabei encontrando com o meu vizinho “Mané português”. O vizinho Manoel tinha vários veículos da marca DKW, e quando descobria que alguém tinha  pra vender não media esforços e comprava mais um talvez quisesse possuir uma frota.

Ele era uma pessoa versátil, enfim tinha varias aptidões  profissionais lidava com veículos, colocava portas de aço, instalava bombas de poço etc., alguns chamavam de “Magaive”, alusão a uma série televisiva da época, especialista em inventar engenhocas.

Neste dia 13 de maio também estava de folga, não foi trabalhar no Hospital Leão XIII, hospital próximo do Museu do Ipiranga, local em que trabalhava no setor de manutenção.

Falando do Hospital Leão XIII, certo dia o “Mané português” nos levou para conhecer internamente as dependências, e por um acaso era hora de jantar, daí jantamos na companhia dos funcionários, que após jantarmos nos levou até o frigorífico onde guardavam as carnes. Que nada, ele nos pegou de surpresa, o local tinha varias gavetas e cada uma que abríamos  tinha lá um corpo humano congelado.

Tinha acabado de regular o motor de sua Vemaguete, até me disse esse DKW parece uma lambreta, gasta pouca gasolina, mas a questão é regular o ponto, são três bobinas. O Manoel não gostava muito ver alguém meter o pau na sua Vemaguete, alguém disse: “Essa Vemaguete puxar não puxa, mas tem um ronco” – “Pra comprar é DKW e pra vender é DKAGAR”.

Disse ele, pega a sua ventosa e vamos até a Vila Moraes, preciso ir à casa do meu patrício, na casa do “Zé carvoeiro”.

Minha casa era próxima do “Mané português”, fui lá buscar a minha sanfona e vamos nós  pra casa do “Zé carvoeiro”. No caminho passamos no “Bar do Xabrega”, tomamos alguns aperitivos e saboreamos algumas salsichas temperadas, em seguida mais uns quarteirões já estávamos estacionando em frente da carvoaria.

Eu nunca tinha visto os portugueses executando qualquer tipo de serviço na carvoaria, sempre os via bem vestidos e pilotando veículos do ano. Daí quando adentrei na carvoaria vi que eles estavam irreconhecíveis devidos o pó preto do carvão.

Tanto o pai como o filho ao ver o “Mané português” foram dizendo aguarde um pouco que vamos tomar um bom banho, pois afinal estamos parecendo uma lareira desativada, enfim somos carvoeiros, depois a gente conversa.

E assim foi... Embaixo tinha a carvoaria, em cima um belo sobrado, bem amplo, residência dos patrícios. Eu e o Manoel fomos convidados a adentrar no sobrado, que subimos por uma escadaria, onde tinha um espaço para reuniões de família, bater um papo, lógico que não podia faltar à churrasqueira.

Carvão não era problema, colocaram uma boa quantidade na churrasqueira e mediante o uso de um secador de cabelo, apressava, aliás, digo com o vento do secador logo o carvão estava em brasas.

O dono da carvoaria mandou seu filho  Zequinha buscar o “Rojão”. Logo pensei, será que vão soltar fogos de artifícios em comemoração a dia 13 de maio. Isso chateia,  esse negócio de bombas, rojão já está fora de uso, é duro de tolerar, ainda mais que tem causado muitos acidentes, lembrei de que o ilustre Mario Zan resolveu comemorar uma festa qualquer se deu mal, soltou um rojão e acabou se ferindo no polegar direito, e a sua execução musical ficou certo tempo comprometida.

Enfim, nada disso o dito “Rojão” que trouxeram era um instrumento musical que tem som parecido com o da viola, cavaquinho rústico com 5 cordas.

O português tocador de “Rojão” pediu a mim, dá um lá maior pra afinar o instrumento. De imediato com ambas as mãos, no teclado da sanfona e também na baixaria, unindo  um acorde de lá, e lá foi ele no Rojão “toim, to toim...”.

Urrá-los! Pensei eu, que tipo de musica vou ter que acompanhar. Eu sabia tocar aquela tradicional “Uma casa portuguesa com certeza...”, “Vamos dançar esta linda brincadeira”,mas os portugueses não queriam essa  musica eles eram de Funchal. (Cidade portuguesa da Região Autônoma da Madeira).

Iniciamos a tocata, uma espécie de versos improvisados. Pra mim era novidade, ouvi muitas emboladas, desafios, peleja entre músicos do norte e nordeste, mas desafio português?

Deduzi neste momento que as origens desse tipo de manifestação folclórica deveria ser a matriz dos nossos conterrâneos do norte. A cada verso cantando pelo dono da carvoaria percebi que o meu amigo Manoel ficava triste, pois o português carvoeiro era mais agressivo.

Resumindo, foram horas, eu acompanhando os repentistas portugueses, sempre na mesma nota, que resumia: 1.ª de Lá Maior  - 2.ª M i - 3.ª Ré, os gaúchos também cantam seus repentes mais ou menos iguais aos portugueses.


Lembrei deste assunto hoje dia 22 de novembro, daí resolvi pesquisar na web, quem sabe acharia a foto desse instrumento musical português. Mas que nada, acho que os patrícios erraram o nome, pois afinal só encontrei “O rajão”.

Comentários

  1. Nome: Osnir
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    Qdo. fui designado p/ trabalhar no HC compondo a segurança daquele patrimônio público um colega me levou por aqueles labirintos. Ao me ver atordoado, sem saber onde estava, abriu uma porta grande de aço e acabei dando de frente com um enorme aquario. Só que não havia peixes e sim corpos humanos boiando em formol. Vich!!!Abraços.
    Nome: esther
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    Cada terra com seu uso , cada roca com seu fuso!
    Nome: Nivaldo
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    Portuguesada, nós é que não entendíamos a forma diferente deles falar a língua pátria!

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