“Zeca Bem o contador de histórias”

FRANCISCA TANGERINO (BISAVÓ); JULIA (AVÓ); ZECA BEM
ANA - MARIA - DEOLINDA
FOTO BATIDA EM SANTA EUDÓXIA-S.CARLOS, 1929

José Pereira Tangerino (Zeca Bem), meu avô materno nasceu em 1894, no então povoado de Belém de Descalvado - SP, tempos do dom Pedro II, e que um dia resolveu imigrar para a capital de São Paulo com toda a sua família, a procura do “Eldorado”, que juntando com os compadres Benedicto e Brás adquiriram um terreno no bairro da Vila Carioca, isso nos anos de 1950, antes de mudar a família morou na Rua São Sebastião, 82, vizinho da família do "João Dio". 

Uma de suas irmãs a tia-avó Maria Cândido Pereira Tangerino *1880+1960, botou nele o apelido de “Zeca Bem”, não sei qual o motivo deste apelido, mas que pegou, pegou, todos o chamavam por esse apelido.

Ele na sua infância entrou numa escola rural do bairro da Fazendinha (parte de uma Sesmaria), terras doadas pelo governo da província, mas não conseguiu aprender, apenas assinava o seu nome, e ficava nervoso por não saber soletrar as lições da cartilha, que era “pata pá, pata pá”, enfim ele colocava o dedo fura-bolo na página  e nada de aprender, chegou a furar a dita página.

"SESMARIA", terras essas que eram concedidas "POR MERCÊ  DE SUA MAJESTADE, O REI DE PORTUGAL", através do Governador da Província, se eu não me engano as terras dessa região chegou a pertencer ao ilustre Bandeirante Amador Bueno da Veiga, (ano 1625) posteriormente foi sendo desmembrada até chegar nos dias atuais.

Passou a maior parte de sua vida trabalhando na lavoura, lidando com gado, enfim atividades rurais de uma forma geral.

Agora residindo na Vila Carioca – Ipiranga – SP, foi trabalhar em obras (edifícios) exercendo a função de servente de pedreiro já com 50 ou 60 anos de idade.  Julia A. P. Tangerino, minha avó todo dia preparava a marmita para ele levar. Levantava bem cedo, tinha o hábito de rezar o terço antes de sair de casa. E assim foi, resolvido a questão lá vai ele andando a pé até a Rua Silva Bueno e nas proximidades do Cine Anchieta pegava o bonde aberto e seguia para o seu destino.

Ele reclamava muito de andar de bonde, isto em razão do bonde viajar sempre lotado de passageiros, tanto sentados com também nos degraus do bonde de ambos os lados.

Zeca Bem era pandego por natureza, vivia ironizando tudo o que via pela frente. Observando o cobrador do bonde que deslizava pra todo canto com uma das mãos cheia de “manolitas” cobrando as passagens ele fez um comentário dirigindo a mim. O cobrador recebe o dinheiro das passagens, puxa uma cordinha e lá vai mais um  registro de uma passagem paga. Ele ficava atento ao som do dispositivo que ia alterando a cada puxada que o cobrador aplicava espécie de um velocímetro de automóvel. Disse também, ondé que ele vai guardar tantas manolitas, antes que um batedor de carteiras leva toda a féria.

Nesse dia aconteceu algo que o chateou muito. Chegando à Rua dos Lavapés, sentido centro, alguém esbarrou nele e a sua marmita caiu no leito carroçável, que logo em seguida passa um veículo  por cima e  transforma-a num papel laminado e o conteúdo esparramado. Zeca Bem disse pra mim. “A marmita ficou iguarzinha uma paragata roda moiada”.

Enfim ele foi para o seu trabalho, eu para outra parte da cidade também trabalhar. Chegando ao edifício, local de trabalho os seus colegas perceberam que ele não estava de boa cara, parecia tristonho. Um deles perguntou e aí, aconteceu alguma coisa com você. Respondeu ele, hoje eu  não tenho o que almoçar, perdi a minha marmita.  Vou ter que comer um Bauru (pão com mortadela)  de qualquer jeito e tomar qualquer refrigerante para ajudar descer o “meu engasga gato”.


Depois desse dia ele criou uma frase meia esquisita: “São Paulo é do diabo, lá no interior não tem tanta gente assim, um dia eu vorto pra lá”. Ele faleceu no dia 13 de abril de 1986, participando de uma festa de aniversário dele e da bisneta a menina Daphne.

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