MONTEIRO LOBATO, 1937







PRAÇA DA SÉ 






 O FERREIRENSE
29-8-1937

O CABEÇA CHATA
-Monteiro Lobato-

Nada mais difícil do que julgar. Quem ouve as razões dos dois lados, foge de dar sentença. Ou dá razão às duas partes, ou não dá a nenhuma.
O regionalismo no Brasil criou o habito de dar sentenças antes de ouvidas às razões das partes.
Freqüentemente ouvíamos nortista dizer que o paulista é isto ou aquilo e vice-versa, como ouvir o gaucho dizer do mineiro isto ou aquilo e vice-versa. Mas paulistas, nortistas, gaúchos, ou mineiros, que se conhecem mudam logo de parecer. Percebem o falso dos julgamentos coletivos. Somos de norte a sul, terrivelmente irmãos, nas qualidades e nos defeitos. A norte, a sul, a leste e a oeste existe a mesma quantidade de gente boa e de gente má.
Depois da revolução de 1932, em que São Paulo foi invadido pelas  tropas federais, a exasperação contra os nortistas chegou ao apogeu. O cabeça chata! Com que gosto  os paulistas estigmatizavam esses irmãos nordestinos que o governo federal fardara e lançara contra  nós! A expressão “cabeça chata” dizia tudo, principalmente na boca das mulheres, sempre tão hábeis nas destilações dos venenos verbais.
Lembro-me dum caso melancolicamente triste e de que não me esquecerei nunca: o caso da Dama Paulista e do Cabeça Chata. Coisa vulgar, simples incidente na rua – mas caso em que o Orgulho teve de baixar os olhos para esconder uma lágrima.
Eu havia tomado um ônibus na Praça da Sé e sentara-me no banco fronteiro ao ocupado por duas senhoras – a Dama Paulista e outra. O veiculo seguiu. Na primeira parada entrou um homem moreno, anguloso, recurvo – o tipo clássico do nordestino. Veio sentar-se ao meu lado.
A presença daquele homem no mesmo ônibus que ela tomara, irritou terrivelmente a orgulhosa dama paulista, e ei-la a desabafar-se nos termos mais cruéis.
---Nem conheço mais a minha terra, começou a dizer a meia voz para a companheira. A gente põe o pé na rua e só vê disso, essas “coisas” que o norte manda para cá, para estragar a cidade. Deus te marcou, alguma coisa em ti achou. O achatamento de cabeça é marca certa de ruindade – e foi aí além a rosnar as impertinências mais ofensivas.
Aquilo me incomodou. Se o homem perdesse a paciência e revidasse, tínhamos escândalo dos piores. Olhei para ele, certo de vê-lo já rubro de cólera e em ponto de explosão. Enganei-me. Sua expressão era de calma absoluta, embora um tanto dolorosa. Tinha a cabeça baixa, como quem está absorvido em cismas.
E a dama a dar-lhe.
---Andam morrendo de fome por lá, e quando caem aqui ficam como os donos da casa. Aí, eu é que queria ser governo, para mostrar como se faz!. Expulsava-os a todos. É cabeça chata? Então, rua! Isto aqui é nosso. Não pode estar sendo estragado com a presença dessas lacraias...
Era demais. Se o nortista não se ofendia, eu me ofendi por ele. Embora paulista, a atitude daquela dama estufada de orgulho me envergonhava – e, mais que isso, me exasperava. Deliberei intervir, chamá-la a ordem. E voltando-me bruscamente, comecei:
---Minha senhora, permita-me que lhe diga  que...
Mas não fui além. O cabeça chata deteve-me:
“Não! Não a irrite  ainda mais. Ela seria capaz de arrancar-me o único olho que me  resta.”
Só então observei que o homem era cego de um olho.
---Como foi isso?
---Perdi o olho esquerdo num dos combates do Túnel, -- batendo-me por São Paulo...
A dama calou-se. Espiei de soslaio. Estava de cabeça baixa, fingindo procurar qualquer coisa na bolsa. O lencinho,está claro.  

Texto extraído  do jornal O FERREIRENSE, editado em Porto Ferreira

J.C.Oliveira ‘’Tangerynus”



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