César Cardozo lança seu livro de crônicas em Porto Ferreira e conta como foi a experiência.

Imagem: à esquerda, César Cardozo, à direita, Renan Arnoni. Obra de Arte Pindorama Lounge (Bob N), Espaço Cultural Gilberto Chateaubriand, 2013, Porto Ferreira (SP).

César Cardozo


Geralmente sonho e depois acordo, mas naquele dia acordei para viver um sonho. Estará sempre em meu coração esse dia 24 de novembro de 2013 como o dia em que uma cidade, Porto Ferreira, me abraçou. A cidade é importantíssima para a história da cultura de raiz, a cultura caipira, muito porque Zé Carreiro, um dos mestresabsolutos da música rural brasileira, nasceu e cresceu lá, mas também porque há décadas é ponto de encontro de violeiros de todos os cantos que se apresentam no tradicional programa de auditório de João Ricci, também transmitido por rádio, e a cidade é importante também porque todo ano no mês de maio acontece o Festival do Zé Carreiro em que violeiros e cantadores se reúnem para homenagear a verdadeira música de raiz. 
Acordei cedinho, saí de Ribeirão Preto via Anhanguera (SP 330) e em uma hora estava chegando à charmosa cidade de Porto Ferreira. O programa começou às nove, mas passei cerca de uma hora conhecendo e conversando com cantadores, violeiros, contadores de causos e gente de todo tipo antes das modas inteiras e dos aplausos. 
Gente de Descalvado, Itirapina, Pirassununga, enfim, gente de todo canto dedilhando cordas, esquentando vozes e contando coisas. Desde uma menina de uns dez anos de idade que foi cantar com seu pai, e realmente fez muito bonito, até a lenda viva Flôr do Campo, um violeiro famoso com quase noventa anos que conheceu Zé Carreiro e viveu os anos dourados da música de raiz e passando pela grande sensação que é o Gabriel Violeiro, um menino que ainda com treze já é um virtuose da viola caipira e uma voz firme e segura, guardem esse nome, o menino tem um futuro maravilhoso. E também tinha o Cancioneiro, um cantor que presta tributo ao genial José Rico e muitas outras atrações. 
Ver toda essa gente se preparar para as apresentações foi marcante, assistir ali pessoalmente a cada moda com aquele som vigoroso que só a viola caipira produz e naquela acústica mágica de uma antiga estação de trem aposentada, e ainda, como bônus, ser visto por todos não apenas como escritor, mas como defensor da transmissão da nossa verdadeira cultura popular e convidado a subir àquele palco sagrado, pegar o microfone para, em meio a tanta cantoria, reafirmar para aquele povo que ali foi assistir, a importância que tudo aquilo tem tanto para nós mesmos quanto para nossos antepassados e, ao mesmo tempo, para nossos futuros descendentes. 
Tudo isso foi inesquecível, como inesquecíveis foram os momentos que passei, eu e uma comitiva de violeiros, no sítio do Amarildo e da Angela, na divisa com Santa Rita do Passa Quatro, muito perto de onde Zé Carreiro passou a infância antes de arrumar um emprego na fábrica de cerâmica no centro da cidade e antes, bem antes, de se tornar um dos grandes nomes da nossa música. 
Lá ouvi causos, ouvi modas, fingi que pesquei, comi, bebi, e me apaixonei por uma terra onde não nasci, mas onde de certa forma cresci, porque estamos sempre crescendo quando fazemos dos melhores momentos da vida algo que nos leva adiante e esse momento em Porto Ferreira foi um passo adiante para mim, em que pedi bênção ao passado, às tradições, mas que fui adiante. 
Que bom que saiu no jornal, que bom que foi fotografado e até filmado, mas, acima de tudo, que bom que foi vivido. Crianças e adultos juntos defendendo uma tradição cultural e sorrindo com a mesma empolgação quando o ponteio da viola era mais bonito, quando as harmonias das vozes saíam caprichadas. 
Porto Ferreira é um sonho que merece ser vivido. Se você mora perto vá sempre, mas se morar longe reserve ao menos o mês de maio e vá viver a cultura de raiz no Festival do Zé Carreiro. Vale muito a pena. Da minha parte, vou voltar sempre que me chamarem. Eita que já tô até com saudade!
Final de abril deste ano, às vésperas da mais recente edição do festival, publiquei um texto no Facebook defendendo a preservação da nossa cultura e fazendo um pedido sincero de que jamais despersonificassem aquele importante festival. O texto caiu nas graças de gente ligada à cultura de raiz e, uma vez lançado meu livro de crônicas, fui convidado a participar do programa dominical do João Ricci, com o apoio da atuante secretaria da cultura de Porto Ferreira, tendo à frente Renan Arnoni, assim como do Casal 20 da música de raiz, os agitadores culturais Angela e Amarildo Canalli. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MINHA BISAVÓ FOI PEGA NO LAÇO?

TRIO UIRAPURU

UM GALO AMARRADO PELO PÉ!!!