A herança de João Ignacio Ferreira, o balseiro. – Parte 2



Em 27 de agosto de 1878, Thomé Ignacio Ferreira pediu para ser juntado aos autos, em razão da procedência do inventário, várias dívidas feitas por ele em auxílio ao seu finado pai, João Ignacio Ferreira, as quais somaram Rs131$768 (cento e trinta e um mil setecentos e sessenta e oito réis), para pagar os custos dos medicamentos, itens de uso pessoal, outros materiais e atendimentos médicos concedidos ao seu pai no leito de morte.
Segundo recibo de 7 de junho de 1877, foram gastos oito mil seiscentos e quarenta réis em remédios fornecidos ao falecido, durante a enfermidade. Identifica-se, no mesmo documento, a assinatura de Domingos José de Cerqueira Pinto, quarto boticário de Pirassununga, de acordo com Manoel Pereira de Godoy - os boticários exerciam, na época,  a mesma função dos farmacêuticos, hoje.

A Receita
Seguidamente, na página 26 do Inventário, encontra-se uma receita fornecida a João Ignacio Ferreira, “morador no porto”:
“Assafetida - 4 gramas; Acido Phenico - 5 gotas; Essência de hortelã pimenta - 5 gotas; Gemma D’ovo; Água quente 200 gramas”. A indicação destes medicamentos, os quais perfizeram a soma de mil e quinhentos réis, foi “para uso externo como clyster”.
Interessante definição acerca dos elementos da receita é observada no “Formulário ou Guia Médico”, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, 6ª edição publicada em 1864, que era um livro de apoio aos boticários e passou a ser consultado por médicos, práticos e acadêmicos, sendo a referência da medicina no Brasil, no final do século XIX. Tendo em vista tais fármacos supracitados encontrados no guia médico, puderam-se deduzir as possíveis causas da morte de João Ignacio Ferreira. Portanto, passa-se a discorrer sobre os mesmos.
Os “clysteres” eram injeções feitas no intestino grosso, preparadas com alguma substância medicamentosa. Primeiramente, fazia-se um “clyster” com água para limpar o intestino e, através de outro “clyster”, aplicava-se o medicamento. Frequentemente empregava-se a hortelã pimenta como excitante utilizado nas cólicas nervosas, nas diarréias, vômitos espasmódicos, tosses convulsivas, asma, e como vermífugo. Segundo fontes atuais, contêm propriedades analgésicas, anti-sépticas, antiinflamatórias, calmantes, digestivas e expectorantes, combatendo, também, dores abdominais.
Já a Assafetida é uma substância que, em altas doses, irrita o canal intestinal e, em pequenas porções, funciona como antispasmódico, administrada contra histerismo, asma, vômitos, cólicas nervosas, nevralgias e outras enfermidades espasmódicas. Substância de cheiro fortíssimo, sabor amargo, solúvel em álcool, éter, vinagre e gema de ovo. Um produto com estas propriedades não poderia ser ingerido oralmente, logo, administravam-se como pílulas ou “clysteres”. O Manual do Dr. Chernoviz sugere que sejam feitas 100 pílulas de 6 a 12 por dia, ou “clyster” de assafetida a uma oitava, gema de ovo nº 1 e água quente 6 onças, correspondentes a 192 gramas. Indicava-se a gema de ovo quando se ajuntavam medicamentos que não se podiam misturar, como água e óleo ou “clyster” de água e assafetida.
O ácido fênico, utilizado como anti-séptico, causou uma revolução na medicina ao ser administrado por Joseph Lister, no século XIX, para desinfetar fraturas expostas, interrompendo as infecções, situação cirúrgica que, geralmente, causava a morte ou a amputação do membro. Posteriormente, ele foi substituído pelos antibióticos.
Diante de tais colocações, pode-se concluir que João Ignacio Ferreira, provavelmente, sofria de uma cólica intestinal nervosa, talvez, ocasionada por um câncer colorretal, doença a qual, hoje em dia, mata 655 mil pessoas por ano, sendo o 3º tipo mais comum de câncer e a segunda razão de morte no Mundo Ocidental, segundo a World Health Organization (2006). Mas, obviamente, trata-se de uma presunção pessoal pautada nas evidências apresentada pela receita contida no inventário.

Despesas do Falecimento
Dentro das despesas apresentadas por Thomé Ignácio Ferreira, em 13 de Julho de 1877, pelas horas de sino, comumente tocadas na igreja em memória dos falecidos, e o risco da cova, foram cobrados 4$640, pelo sacristão da Vila de Pirassununga, Joaquim Miranda de Jezus.
Dos gastos com o enterro, efetuados no dia 7 de julho de 1877, constam: 1 caixão - 10$000; 3 missas de corpo presente - 12$000; Suportes de velas para enterro - 6$500; Recomendação da alma - 2$400; Despesas que  o filho do balseiro fez de noite - 7$600. O total perfaz 38$500 (trinta e oito mil e quinhentos réis). Contudo, o que merece atenção, foram as compras realizadas por Thomé, na “A Loja do Carneiro”, no dia 6 de julho de 1877, pertencente ao Sr. Antonio José do Amaral Rocha, localizada na Rua da Constituição, Travessa do Calvário, Pirassununga:
1 paletó de pano preto 13$000; 1 calça de brim trançado 6$000; 2 pares de chinelos de trança 4$000; 4 lenços pretos de chita 1$280; 36,30 metros de chita preta 21$780; 28,80 metros de chita estreita 10$368; 2 lenços pretos $640; 4 metros de  5$200; 2,5 metros de algodão $800; 10 metros galão  largo 4$000; 9 metros de cadarço $720; 1 caixa de taixas  $320; 150 taixas amarelas $480; 5 metros de baita escarlate 10$000;
Total: 78$588
Efetuando uma análise dos materiais adquiridos, questiona-se a necessidade de tais produtos, tendo como referência a morte do balseiro e a execução do inventário, pois, como o defunto utilizaria 2 pares de chinelos de trança, 6 lenços e esta imensa quantidade de tecidos? Certamente não era para uma festa! A quantia gasta seria suficiente para comprar, naquela época, 2 alqueires de terras na região do “porto de barquinhas”- Porto Ferreira.
Ao analisar todas as notas apresentadas, chegou-se ao valor de 168$868, porém, Thomé I. Ferreira foi ressarcido em 131$768, não se sabe por qual razão.

A Relação com a Família Procópio de Carvalho
No dia 9 de julho de 1878, Thomé Ignacio Ferreira pediu ao Excelentíssimo Juiz de Órfãos que retirasse do inventário uma “casinha coberta de palha no Ribeirão de São Vicente Ferreira”, avaliada em 100$000, assim como um carrinho de mão, comprado por 12$000, pois ambos lhe pertenciam. Em 12 de julho de mesmo ano, por intermédio de seu procurador, dona Maria Joanna concordou com o pedido de retirada destes bens, motivada pelo fato de João Procópio D’Araujo (Sic), primogênito de Joaquim Procópio de Araújo, o grande latifundiário das terras próximas ao porto, ter dito a ela que tais bens, realmente, pertenciam a Thomé. Este fato, citado no processo, demonstra os vínculos relacionais existentes entre a “família Procópio de Carvalho” e João Ignácio Ferreira, gerando fortes indícios, os quais comprovariam a hipótese da origem dos bens do balseiro vinculada aos negócios e auxílio prestados pela família “Procópio de Carvalho”. Indubitavelmente, a balsa precisava ser utilizada para o transporte de mercadorias e passagem até a Vila de Pirassununga, onde o latifundiário, mineiro, mantinha negócios.
Outra vertente, faz referência ao sogro de João Ignacio Ferreira, Joaquim Alves Dias. O Professor Flávio da Silva Oliveira cita em seu livro que, de acordo com uma das versões relacionadas ao surgimento da balsa, esta pertencia a Joaquim Alves Dias, morador da Boa Vista, tendo como funcionário seu genro, João Ignacio Ferreira. Há a possibilidade de grande parte dos bens do balseiro serem provenientes do seu sogro. Porém, no inventário, no dia vinte e seis de janeiro de 1878, a viúva devolve ao pai a quantia de sessenta mil réis, devidas pelo seu marido falecido, fato que põe em cheque a riqueza incólume de Joaquim Alves Dias, o qual não se compadeceu da morte do genro.
Todavia, enquanto o inventário de Joaquim Alves Dias ou outro documento condizente ao ocorrido não forem encontrados, ambas as hipóteses, ou mesmo, a coexistência das duas continuam plausíveis. De fato, cabe salientar, as ações da família Procópio de Carvalho, nas terras vizinhas à balsa, na segunda metade do século XIX, trouxeram impulso e movimento a região do “Porto de João Ferreira”, cimentando um dos pilares de sustentação do município vindouro, ao qual o balseiro empresta-lhe o nome. 

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